Presidente do júri da segunda edição do Artefact AI Film Festival em Paris, Cédric Klapisch se posiciona como observador: nem prosélito, nem reacionário. Nesta entrevista, o diretor explica por que a inteligência artificial o preocupa nos aspectos jurídico, social e ambiental, ao mesmo tempo em que alimenta sua curiosidade como cineasta. Sua constatação é paradoxal e estimulante: diante dessa tecnologia, sua paixão pelo cinema se reforça, como se a inovação obrigasse a realização a reencontrar o que a máquina não sabe imitar.
ENTREVISTA. Cédric Klapisch e a inteligência artificial: a curiosidade antes do medo no cinema
No âmbito do Artefact AI Film Festival, o desafio não é apenas entregar um prêmio a curtas-metragens “aumentados”. Trata-se sobretudo de observar, de forma muito concreta, o que jovens criadores já fazem com ferramentas que revolucionam a criatividade, a produção e às vezes até a percepção da própria realidade.
Para entender essa mudança, imagine Clara, montadora independente em Paris: entre dois projetos, ela vê chegar plugins de limpeza de áudio, assistentes de triagem de rushes, módulos de pré-graduação de cor. Ela não “faz IA”, mas a IA se insinua em seu cotidiano, muitas vezes sem que ela tenha pedido. Klapisch parte desse mesmo ponto: a ferramenta existe, a verdadeira questão é o uso.

Por que Cédric Klapisch fala em “desconhecimento” em vez de fascinação
Seu ponto de partida é simples: ele não se descreve como apaixonado por tecnologia “por princípio”, mas como um profissional que quer entender as novas ferramentas. Essa postura o levou a aceitar a presidência do júri: ver os usos reais, não as promessas de marketing.
No cinema, essa nuance muda tudo. Entre um diretor que explora a inovação para acelerar uma etapa técnica e outro que busca substituir a filmagem por uma geração integral, não há apenas uma diferença de método: há uma diferença de filosofia artística. A conclusão a reter é clara: para Klapisch, a curiosidade é um dever profissional, não um alinhamento.
Cédric Klapisch diante do debate “a favor” e “contra” IA no cinema: uma ferramenta, não um campo
O mundo da sétima arte polariza-se rapidamente: alguns veem a inteligência artificial como um acelerador de criatividade, outros como uma ameaça direta às profissões. Klapisch rejeita a ideia de um voto binário: “a favor ou contra” não ajuda a pensar, especialmente quando a ferramenta já está aí.
Ele diz isso com pragmatismo: pode-se optar por não usar essas soluções, mas para quem as utiliza, é preciso observar aonde isso leva. Essa mudança do debate, da opinião para o uso, permite voltar a questões concretas: quem cria, quem decide, quem assina, e quem é remunerado? O ponto chave: a IA só se torna perigosa ou fecunda através do quadro que lhe impomos.
O caso Aronofsky em série histórica: o que a controvérsia revela
Projetos muito midiáticos, como certas séries históricas realizadas com pipelines reforçados por IA e impulsionadas por nomes prestigiados, frequentemente servem de estopim para polêmicas. Elas cristalizam medos: uniformização das imagens, supressão de postos, ambiguidade sobre os direitos.
Klapisch, por sua vez, reduz esse tipo de anúncio a uma coisa: um objeto cinematográfico a ser avaliado como um filme. Se a história, a direção e o olhar não acompanham, a ferramenta não salva nada. A conclusão final: a tecnologia não cria talento, ela apenas desloca as restrições.
As preocupações de Cédric Klapisch sobre a inteligência artificial: direitos, profissões, meio ambiente
A parte mais estruturante de seu discurso trata dos riscos, porque eles já são visíveis. Sobre a propriedade intelectual, as áreas cinzentas persistem: obras de treinamento, semelhanças involuntárias, remuneração dos titulares de direitos e responsabilidade em caso de litígio.
Outro ângulo, mais material: o meio ambiente. O consumo energético e as necessidades de refrigeração dos data centers têm um impacto tangível, e certas áreas já enfrentaram tensões em torno da água. Essa realidade lembra que a inovação não é “desmaterializada”. O ponto a reter: a IA não é apenas uma questão estética, é também uma infraestrutura.
Dublagem e transferências tecnológicas: profissões já afetadas
Klapisch cita a dublagem como o primeiro campo fortemente atingido: clonagem vocal, síntese de timbres, aceleração das versões multilíngues. Para um estúdio, a tentação é econômica; para um ator, o desafio é existencial.
Clara, nossa montadora fictícia, também percebe isso: se uma ferramenta “limpa” uma tomada de som com um clique, é um ganho, mas isso desloca o trabalho para a supervisão e validação. A questão então se torna: aceitamos uma desaparecimento ou organizamos uma evolução? A conclusão: as transições tecnológicas chegam, mas sua justiça depende das regras e dos contratos.
- Exigir consentimento explícito para o uso de uma voz ou rosto em sistemas generativos.
- Definir cláusulas de remuneração relacionadas às reutilizações (como direitos conexos adaptados ao digital).
- Documentar as etapas de IA na realização (diário de produção, créditos, rastreabilidade).
- Formar as equipes nas novas ferramentas para evitar uma divisão entre “os que sabem” e “os que sofrem”.
- Integrar um cálculo de impacto (energia, armazenamento, renderização) nas decisões de produção, assim como o orçamento.
Quando a IA já serve a realização: exemplos concretos de “La Venue de l’avenir”
O mais interessante nesta entrevista é o contraste entre o discurso público sobre a IA “criativa” e o uso discreto de ferramentas de assistência. Klapisch dá exemplos muito concretos: correção sonora, gradação de cor, restituição de uma atmosfera de época.
Em outras palavras, a inteligência artificial não é apenas um motor de imagens fantasiosas: ela também pode melhorar o real, apagando uma poluição sonora moderna ou ajustando uma paleta de cores para reencontrar uma sensação não digital. A conclusão: a IA costuma se tornar invisível quando bem usada.
Limpeza de som e gradação de cor: a IA como ferramenta de precisão
Em uma filmagem de época situada em 1895, filmar em Paris expõe a um anacronismo sonoro evidente: o rumor dos automóveis. Em seu filme, uma solução de filtragem assistida por IA permitiu atenuar o ruído urbano para manter apenas os diálogos, sem a necessidade de regravar toda a cena em estúdio.
Na imagem, Klapisch menciona um trabalho de gradação para evitar um resultado muito “digital” na parte histórica. Softwares como Topaz foram usados para reconstruir uma sensação colorimétrica mais orgânica, recriando artificialmente certas texturas e nuances. A frase-chave: aqui, a inovação não substitui a direção, ela a apoia.
| Etapa de realização | Uso da IA (exemplos) | Benefício no cinema | Risco a ser controlado |
|---|---|---|---|
| Som direto | Redução do ruído urbano, separação voz/ruído | Diálogo mais legível sem perder a atmosfera | Limpeza excessiva e perda de naturalidade |
| Imagem / gradação | Reconstrução de texturas, ajustes colorimétricos | Resultado de época mais credível, menos “digital” | Padronização do visual se mal conduzido |
| Pré-produção | Maquetes, conceitos, storyboards assistidos | Decisões mais rápidas, melhor comunicação na equipe | Direitos sobre referências e fontes de treinamento |
| Distribuição | Localização acelerada, variantes de trailers | Acesso a mais mercados, custos reduzidos | Atinge profissões (dublagem) se não compensada |
“Sem IA generativa global”: a linha vermelha de Cédric Klapisch para o cinema
Klapisch se mostra muito mais reservado assim que se fala em geração total: personagens sintéticos, atores virtuais “representados” por agentes, cenas realistas produzidas sem filmagem. Ele julga esse caminho pouco crível artisticamente e, sobretudo, pouco desejável.
Sua bússola continua sendo a relação com o real. Ele aceita a animação porque ela anuncia claramente sua natureza, como Toy Story: o espectador sabe que é fabricado, e a emoção pode, no entanto, ser autêntica. Já na estética realista, ele defende o insubstituível: o corpo, a voz, as imperfeições de um ator. A conclusão final: quanto mais a imagem pretende ser verdadeira, mais a humanidade se torna o valor raro.
O que a tecnologia não substitui: presença, defeitos, imprevistos
Trabalhar com atores como Pio Marmaï ou Vincent Macaigne é aceitar uma parte de surpresa: uma respiração, um silêncio, uma fragilidade, às vezes um “acidente” que se torna a cena. Essa matéria não se comanda como um parâmetro.
Para os profissionais, isso implica uma regra prática: usar a IA para liberar tempo na técnica, a fim de dedicar mais ao jogo, ao enquadramento e ao ritmo. Para os curiosos, é uma chave de leitura útil: se um filme te toca, pergunte de onde vem a emoção, da edição ou da presença. A conclusão: a IA pode acelerar, mas não substitui o vivo.
Artefact AI Film Festival: por que a IA reaviva a paixão de Cédric Klapisch pelo cinema
O balanço que ele faz dessa experiência é contraintuitivo: a inteligência artificial lhe dá ainda mais vontade de fazer cinema. Não porque ela torna tudo mais fácil, mas porque obriga os diretores a se reposicionarem.
Ele traça um paralelo histórico: no final do século XIX, a chegada da fotografia não matou a pintura; ela a impulsionou a se reinventar, e movimentos como o impressionismo exploraram outras formas de ver. Sua ideia é semelhante: a IA poderia obrigar o cinema a inventar uma nova gramática e ir mais longe naquilo que ela não sabe fazer. A conclusão final: quando uma máquina copia bem, o artista deve voltar a ser inimitável.
Se você quiser prolongar essa reflexão, observe seus próprios usos: seu smartphone já corrige suas fotos, seus aplicativos melhoram seu som, e às vezes sua edição “sugere” um ritmo. A fronteira entre tecnologia e criatividade não é mais um muro, é uma zona de decisão no dia a dia.
